quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Incômodos e desagradabilíssimos fatos cotidianos

O dia está muito quente, longe de confortável, as pessoas estão comunicativas de mais para eu achá-las simpáticas. Os livros de filosofia estão muito maduros para a minha mente infantil de hoje.
As mangas que eu aguardava para comer com calma e saboreando cada talha, amadureceram demais, de modo que se pode espremê-las  em um copo e sorver o seu caldo amarelo e quente, mas nada das minhas talhas firmes e esverdeadas, gosto de frutos frescos e de carnes consistentes. Deliberei um instante e joguei-as no lixo, muito penosa por tê-las deixado amadurecer e com raiva de atirá-las tão amarelas no lixo, era como se elas devessem se envergonhar e atirar a si próprias como um pedido de desculpas por ficarem tão amarelas, moles e decrépitas.
Meus ouvidos escutam as injúrias que uma voz de dentro solta, então não ouço nada que vem de fora, nesses instantes só o de dentro existe e até a visão fica meio turva. Música, é bobagem tentar, ela é terapia para estágios menos avançados do que esse de paranoia cotidiana, de tédio em seu último nível, música é pra quando a gente tem ouvido para o mundo de fora, e o mundo de dentro não se encontra tão hermeticamente lacrado.

Os dias não tem um menu com final alternativo

Como se não bastasse toda a minha própria cólera, o mundo se impõe como o braço direito de um destino perverso e mesquinho, para fazer de mim um embrulho vil dentro do qual nada se esconde. Algumas roupas encardidas, que de tanto ficarem assentadas no meu corpo sem que eu as tire para lavar e estender, estão já rígidas na superfície do corpo, e mesmo fora dele talvez fossem capazes de sustentar sua forma, e então seriam  como eu, um embrulho pálido  que não envolve nada, só um vácuo misterioso que de alguma forma sustenta um invólucro desprezível.
O dia está abafado, o vento que sopra de quando em quando é quente de mais pra ser agradável. O padeiro está excepcionalmente empolgado, tem uma dúzia de anedotas novas, e outra dúzia antiga mesmo, que ele insiste em recontar.
À porta de casa, o contêiner exala um cheiro forte, partes de várias casas, apodrecidas, nadando em um chorume azedo. As vizinhas são excessivamente amigáveis, e me cumprimentam, e me pegam no braço, imaginem só, me pegam no braço! E me bloqueiam a passagem, e eu começo a suar, vizinhas muito alegres, faladeiras, espalhafatosas, falam alto, e quando avanço, estendem o braço e me impedem novamente a passagem, me perguntam coisas que não sei responder e insistem em coisas que não precisamos saber, eu perco a paciência e solto um quarteirão de ofensas e palavrões, me sinto estranhamente bem com isso, não foi nem um pouco a contragosto, eu poderia ter feito isso sem qualquer motivo, elas poderiam  estar sentadas e eu passando simplesmente e eu poderia injuriá-las a preço de nada, como uma criatura vil e  inconstante que sou, só pelo desprezo de suas naturezas. O odor do contêiner faz arder minhas narinas enquanto subo a escada até o segundo andar com um sorriso malicioso nos lábios. Chego ofegante, não tanto pela caminhada mas pelos seres humanos que insistem em ser obstáculos tão concretos para a minha tranquilidade. A televisão esquecida ligada alerta agora que o tempo continuará esse momentâneo deserto do Saara das Américas .
O pão está fresco mas o café é de ontem à noite. As contas chegaram todas, mas o pagamento não saiu, os bancos ligam sem parar, minha privada entupiu, meu saca rolhas quebrou e eu não consigo abrir o vinho que guardei pra beber na minha folga que seria hoje. Era pra ser um dia sossegado, mas quem tem nervos como eu nessa vida entende que um dia, a vida reúne uma trouxa de coisas chatas e estúpidas como, um clima ruim, um padeiro inconveniente com anedotas detestáveis, xenófobas, homófobas, ou simplesmente patetas de mais, e ainda mais quatro vizinhas extravagantes e um saca rolhas quebrado, e joga essa trouxa na cabeça de quem anda por aí a reunir manias de terceira idade e algumas amarguras, e a cabeça fica dolorida, e de repente o mundo inteiro parece nos desprezar fortemente e então nós desprezamos fortemente o mundo, com mais força que podemos, de modo que nos olhos não cabe uma lágrima, nos lábios já não cabe nem o sorriso malicioso, no peito existe exclusivamente desprezo exagerado, e até um grito que tentamos dar não sai mais do que como um ganido. Dói o ombro, as nádegas, as pernas, dói a cabeça e o peito, na garganta tem uma bola de angústia indissolúvel, isso tudo não pode ter outro diagnóstico, são sintomas intermediários de desprezo pelo mundo com depressão crônica e loucura epilética com momentos de consciência avulsa e estados delirantes. Em um momento o mundo é detestável e você tem consciência disso, em um outro você é um verme da sociedade, eles te desprezam mesmo sendo inferiores em certas medidas com relação a você.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Conflito interno

Dentro de mim há o epicentro de uma grande catástrofe. E eu sigo lutando com minha própria vida, tentando fazer as coisas parecerem mais certas aos olhos de dentro, mas eu olho pra fora e tudo é um caos, começando com a imagem que sustento, sigo apanhando mais que batendo, correndo mais que respirando, chorando mais que sorrindo, odiando mais que amando. Sempre perdendo, quase nunca ganhando. Trilho caminhos que não levam a lugar nenhum, e mesmo estando tão doloridamente consciente disso não sei desviar daqui. Falo coisas que não me fazem apanhar menos. Se estou na vida pra cair, missão cumprida, agora sobre aprender coisas não tenho a mesma certeza, tudo parece o mesmo e eu caio em um buraco só tantas vezes. As janelas estão todas fechadas, um vento cansim sopra constantemente, eu tento fugir mas alguma coisa cola os meus pés no chão, não tenho mais de uma vida e sinto que a que eu tenho me abandona o corpo aos poucos mas a consciência não, eu vejo a vida me deixar em um fio de luz rígido como aço. E todos já se foram, esta é uma cidade sitiada onde o direito de ir e vir ainda é o único que permanece a salvo, e todos se foram numa tentativa de se livrarem do que me assola, essa solidão, essa falta de caminhos. Lacraus, sujeira, serpentes, pobres criaturas e demônios conformados em um lugar sem flores,isso é tudo que sobrou, e a solidão. E eu sigo lutando com minha própria vida que se vai aos poucos.

“affair” - feniletilamina-

Eu nunca quis ser tão sentimental, na verdade isso tudo é tão novo pra mim, eu coloco sentimento em tudo que posso, e involuntariamente, o pássaro canta e a melodia é sempre uma serenata matinal encantadora, eu não planejei ter um coração tão amante, mas eu vi você, o seu calor atravessou vários metros e penetrou fundo cada poro do meu corpo, desde então meus poros exalam um odor diferente, nas minhas mãos há sempre uma carta de amor, o meu corpo se enrola inteiro em um teatro em que eu pretendo dizer as coisas de forma firme e que indique independência sentimental, eu não sei se consigo passar qualquer impressão além dessa figura que parece sempre conturbada e pega de surpresa. É tão difícil conviver com o relógio sabendo da existência dos seus olhos. Eu nunca quis ser assim, mas isso tudo de ter a respiração repentinamente ofegante sem motivo visível além da sua aproximação é coisa tão forte, que não consigo sequer desejar a liberdade dessa prisão meio melancólica e meio possessa, meu corpo está eletrificado 24 horas por dia. Há loucura em cada fissura da pele, em cada espaço entre uma célula e outra, há paixão em todo o sistema e hormônios bagunçados derramados em doses exageradas no meu sangue, por dentro das artérias.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Autoflagelação

O Sol nasceu mais cedo que de costume e disse bom dia, tudo que eu quis responder foi que por misericórdia fosse embora, deixasse a noite comigo e as estrelas brilharem.
Não sou nenhuma masoquista e não uso silício mas a autoflagelação não consigo evitar, sinceramente não consigo nem tentar evitar... Pensamentos, sentimentos e principalmente um vazio aterrador sempre voltam para me perturbar, sou mártir e vítima do que vive dentro de mim e que eu desconheço por completo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Stella minha

Eu tinha uma estrela, a qual eu assistia todas as noites que o céu me permitia, as noites sem a minha estrela eram como passá-las inteirinhas em um túnel muito escuro. Nenhuma luz da cidade nem todas elas juntas me bastavam, mas só a minha estrela brilhava o que me satisfazia. Agora ela não brilha mais. Eu nunca soube o seu nome, ela nunca me disse, mas ela tinha um nome que eu dei à primeira vista que ainda me encanta na lembrança. Stella Bibiana -suitable-
Agora há borra de café no fundo da minha xícara e nenhuma estrela mais posso ver. Ontem mesmo a Lua estava tão cheia que quase tomava o céu por inteiro, mas a minha Stella em algum lugar deve ter enciumado a admiração daquele breve momento, e a Lua então desceu ao mar com um esplendor muito triste e mergulhou por completo se afogando, bolhinhas de ar subiram à superfície das águas já negríssimas, agora tenho certeza de que algo da minha Stella segue flutuando pra mim, talvez como o mais extraordinário dos pós cósmicos e gases, talvez como o mais belo que a não-existência pode oferecer, mas jamais opaca e ordinária, sempre melhor.

Essência e frasco

Tenho uma chama acesa do lado de dentro e uma acesa do lado de fora...
A de dentro é tão persistente que reflito sobre eternidade, a de fora é tão fugaz que o tempo, vento e oxigênio a consomem deploravelmente.
Tudo que sinto parece forte de mais para o corpo que me comporta, uma péssima criação para um bom desenvolvimento, um presente mal embrulhado, tal é minha existência, tão frágil porém tão fatal na medida em que se rompe por dentro. Tudo poderia ser posto em um frasco mínimo, mas se extravasa - e olha que as vezes me escapa, perco o controle, e de repente ...- sinto queimar e arder o valor de tudo que existe, o significado de tantas coisas que já busquei ao longo dos anos jorra por todos os canais orgânicos e psicológicos, em uma fração ínfima de tempo a chama de dentro domina tudo, quando abro os olhos, os meus dedos- sim os meus dedos, que são parte de uma embalagem tão cambiável e insignificante,- já apagam uma chama externa, o cigarro repousa morto no cinzeiro.
E cá dentro todavia arde, em menor intensidade, mas a chama arde e é quase eterna.

O poder da mudança que não é feita

Eu nunca quis morar aqui, e no entanto aqui sigo vivendo, irremediavelmente triste e desconfortável nesta vida enfadonha.
Eu nunca gostei de café amargo, e no entanto raramente me lembro de colocar o açúcar, - os lembretes na porta da geladeira não são de grande ajuda-.
Às vezes, coisas esquisitas acontecem comigo, como tossir de manhã e sentir um gosto forte de órgãos internos  no fundo da boca, ou deixar que o sangue que escorre do nariz em dias muitos secos seque, sem conseguir me mexer para enxaguar.
Tenho alguns diários velhos que gostaria de atirar no lixo, mas sempre fico com eles entre as mãos sobre o cesto e não consigo. Não tem nada de especial escrito lá, de fato as capas são bem mais interessantes que as linhas de dentro, mas sempre volto com eles e guardo longe do alcance dos meus próprios olhos.
Eu queria começar de novo mas já fui tão longe que desaprendi a começar, não sei começar...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Coisa de mulher

Um frio me soprou a alma nesta tarde, meu estômago gelou, fechei as janelas e os olhos, mas não teve jeito, o frio soprava por dentro, entendi então que era uma tempestade de amor. Não se fecha as janelas da emoção . Ele se foi e eu não disse muita coisa, mas agora, aqui dentro, uma névoa gélida começa a pousar levemente sobre a superfície das coisas belas que acumulei, e sem piedade martiriza uma pobre mulher que sempre quis, mas nunca soube amar.

Uma mulher, um sorriso, um enígma...

Existem mistérios indecifráveis no período de uma vida. Como o sorriso dela naquele campo aberto, nunca soube ao certo se era contido ou forçado, apesar de vê-lo vivo em meu íntimo com cada lembrança.
Isto desperta em mim um sentimento de enigma que veste as coisas mais simples que não sei entender. As pessoas com quem encontro costumam ser muito sutis, quantos adeus ouvi sem saber se eram definitivos, até que minhas esperanças se esfacelassem no tempo. Preciso de tempo além de uma vida, ou jamais entenderei o sorriso dela, foi contido? Foi forçado?

Oh fêmur de ideias minhas!

Não preciso de muitas certezas, minha segurança mora dentro de mim, ela é meu esqueleto feito de ideias, e o esqueleto é tudo que importa, logo, sou ideias somente e nada além de ideias pretendo ser, um pouco de emoção que se renova e se atrita constantemente contra ideias um pouco rígidas de mais para serem engolidas sem qualquer contestação. Meus ossos descalcificados, e cheios de sabores utópicos que viajam por cada célula vivem em luta profunda e calma com suas partes sempre não mais que interiores, sou alheia à matéria, às fronteiras, é como se o exterior não precisasse existir para que minha luta permanecesse. Sempre.

Som amedrontador

Fosse tango o som do relógio...
pássaros, árvores, vento, nuvens,
todos dançam ao som do relógio. Eu não.

Superstição

Ando vacilante por ruas largas e tortas, longas e quentes, que desembocam em ruas estreitas e tortas.
Nas esquinas: indecisão.
Nas encruzilhadas: paro.
Sou a garrafa de vinho barato, o litro de cachaça, a galinha preta, sou dedicada ao mau, mas sou torta e vacilante, gélida e indecisa, sou retraída e engraçada. Um contraste com qualquer avanço, não acompanho a metamorfose do homem e da cultura, permaneço galinha de penas negras, cachaça, vinho, indefesa, feia, indigesta.

Poeta boêmio

O mundo crucifixa o poeta boêmio.
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Estes chandalas, liberais,
libertinos e levianos,
que espalham vícios e cartas,
desafiam as regras civis,
desafiam as regras físicas- estando em tantos lugares em um  único espaço de tempo-

São sonhadores natos, iconoclastas sem ídolos
debocham de crenças, e no entanto vangloriam o amor e o ato de amar,
figuras femininas são colocadas em pedestal,
amam e fingem e cingem seus corpos com coroas da ilusão,
 em meio fumos de cigarros e doses ardidas de bebidas quentes,
 vivem não com o cérebro mas substancialmente do coração vivem. Somente.
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Eles todos não podem entender
que entre amar e viver
o poeta escolhe o amor.
Menos ainda que sempre se irá perder,
perde a si mesmo e encontra o que ninguém se permite encontrar...
E na dor não perece
sem ao menos o gozo de sonhar com amores
que  o mata.

Círculo global

Sou cíclico, mas não sou contínuo,
sou redemoinho que gira sempre
engulo quanto vejo, devasto tudo que é.

Outdoors me cegam os olhos,
uma realidade contrastando
com a realidade maior
na beira da rodovia...

Tudo gira e tudo se comunica
as coisas falam por si
uma placa de ideias de cada lado.
As coisas fazem um marketing novo a cada dia
e o marketing faz o homem-coisa.

Aldeia global
Aldeia local
quanta coisa fora da globalização

Sou cíclico e fujo,
o mundo é um redemoinho maior.
Rodas, luz, barulho-motor...
Faz tanto tempo e ainda estamos,
ainda somos: Estes de Revolução Industrial.
Tudo é industrial agora,
tudo é industrial a final. A fim de processar...
Processar tudo o que há.
O ar, processam o meu ar com fumaça industrial.
Processam o meu cérebro em viagem outdoorlesca.

Cotidiano

Sinto peso nos ombros e cansaço nas pálpebras, sinto-me desconfortável e de pernas covardemente doentes, doentes de caminhar, caminhar e me carregar, vendo as mesmas coisas sempre por aí.

Um passo, um regime... Outro passo, uma abertura

Deng Xiaoping,
Gorbachev,
Geisel

Fogo Cruzado
Uma clareira na floresta excessivamente úmida,
se for muito além... Um buraco na camada de ozônio.

Palavras de amor ao telefone mudo

Frases minhas desligadas das suas, você balbuciou algo que não tinha coerência alguma com nada que eu havia dito. Tantos assuntos simultâneos com o intuito somente de nos esconder. Fiquei em silêncio um instante, foi então que percebi, duas bocas que falavam tanto pra ocultar os gritos de dois corações. Tropeços de comentários e indiferença mal encenada, casualidade... Filmes...as palavras de alguém...esporte...a inauguração da linha férrea...

Você se despede, mas eu sinto como uma hesitação do outro lado da linha, mais nenhuma palavra, e então sei que a chamada foi encerrada, já nem me lembro se fui eu quem discou o seu número ou se meu telefone tocou. Frases seguras, decididas e destemidas me deixam o corpo e batem com força no aparelho telefone, frases do tipo que eu gostaria que ouvisse, ah! como eu queria ser ousado, mesmo que fosse torpe, como queria ser seguro ainda que extravagante, vil ou desavergonhado, como queria ser firme mesmo que por um instante. Um instante muitas vezes muda uma vida inteira. Mas você já desligou, eu sou sempre assim, sempre um pouco tarde de mais, me descarrego, me declaro, te devoro, me desenrolo de palavras de amor, faço um papel ridículo, ainda que fosse assim ridículo mesmo, ficaria como que exorcizado se ao menos conseguisse ser ridículo pra você, o telefone está mudo.Ele só me ouve.Sou mesmo um novelinho amarelado de tempo e jamais poderei exibir minha cor brilhante que se esconde sob opaco amarelado de tempo, não me desenrolarei pra isso.Só quando o telefone cala...

Sociedade em aborto, pensamentos sem raízes

Antes da porta, uma imagem de civilidade suficiente, descolorida mas natural, após a porta, um sinal de indisposição na marca forte de baba velha de muitas semanas na fronha do travesseiro, e apesar da renite alérgica, asma, bronquite e inflamação constante das amígdalas, sustento persistentemente minha eterna incoerência, e então... pelos de gato pousam asquerosamente sobre todas as almofadas da casa, entremeando o tecido e as linhas da costura, e sobre a superfície de todos os móveis, quase todos totalmente dispensáveis, inúteis.
Um gole de café requentado...
Um trago no cigarro reaceso...
Discursos internos, sentido algum. Algum sentido: Ferrugem na máquina, ferrugem em tudo que o homem faz, oxidação das organizações. Uma prova de robotização e desumanização: A própria burocratização e estupidez do homem incorporada pelo serviço público, e do serviço público levada de volta ao homem inflexível e sem imaginação e terminantemente neutral, nauseabundo e infectado.
Coisas que fazem ninho na minha mente e trazem para dentro das veias a poluição, o ultraje de um mundo inteiro com doenças tratáveis mas sem médicos capacitados. Minha mente fica quase que constantemente cogitabunda, cheia de remendos e feridas mas incansável, ainda que nunca saciada. Os pensamentos são jogados para fora, para sobreviverem como órfãos , sem apoio e quase sempre sem júbilo e anêmicos e muitos morrem de mal de sete dias.

O mesmo olho, a mesma fresta

Todos os dias o mesmo olho, olhava pela mesma fresta, o mundo pequeno que jamais dava sinais de mudança.
Todos que viam aquele par de olhos, enxergavam ali somente o que refletia de imagem real - o pouco movimento da rua, as casas de conjunto da prefeitura, o Sol morrendo no horizonte...- não viam além disso, nem alegria e nem decadência, nem luta e nem resistência, imersos em suas realidades também complexas mas de poucos olhos.
Cármen era dessas mulheres que toleram com tranquilidade absurda todos os aspectos cortantes de uma vida carregada de aspiros, e somente aspiros .
A cidadezinha era a mesma de quarenta e três anos atrás, a monotonia, e principalmente a simpatia irrelevante era recíproca, nem uma nem outra possuía espaço para alastrar qualquer coisa dentro ou fora de si.
Nenhum tipo de integração não exploratória com o resto do mundo, ou eram párias ou inexistentes para tudo que estava além de suas limitadíssimas fronteiras; Cármen sentia isso, mas sentia somente, não era ao contrário do que se pode pensar, nenhum senso crítico da situação social , pelo contrário, era nada além do que anos de isolamento naqueles confins poderia imprimir em qualquer coração encarcerado, uma dúzia de sentimentos, e já Cármen punha-se a respirar ofegante, tão pobre de caminhos era aquilo em que existia, mas seguia pensando que tudo provavelmente estava em seu devido lugar. As aspirações de Cármen  morriam com o cerrar da fresta da janela de madeira. O intervalo de sobrevivência das fantasias de Cármen era demasiado curto, uma realidade relâmpago por trás de um espelho trincado, um reflexo que se repetia melancolicamente por várias tardes de todos os anos pela única fresta de uma vida inteira.