segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O mesmo olho, a mesma fresta

Todos os dias o mesmo olho, olhava pela mesma fresta, o mundo pequeno que jamais dava sinais de mudança.
Todos que viam aquele par de olhos, enxergavam ali somente o que refletia de imagem real - o pouco movimento da rua, as casas de conjunto da prefeitura, o Sol morrendo no horizonte...- não viam além disso, nem alegria e nem decadência, nem luta e nem resistência, imersos em suas realidades também complexas mas de poucos olhos.
Cármen era dessas mulheres que toleram com tranquilidade absurda todos os aspectos cortantes de uma vida carregada de aspiros, e somente aspiros .
A cidadezinha era a mesma de quarenta e três anos atrás, a monotonia, e principalmente a simpatia irrelevante era recíproca, nem uma nem outra possuía espaço para alastrar qualquer coisa dentro ou fora de si.
Nenhum tipo de integração não exploratória com o resto do mundo, ou eram párias ou inexistentes para tudo que estava além de suas limitadíssimas fronteiras; Cármen sentia isso, mas sentia somente, não era ao contrário do que se pode pensar, nenhum senso crítico da situação social , pelo contrário, era nada além do que anos de isolamento naqueles confins poderia imprimir em qualquer coração encarcerado, uma dúzia de sentimentos, e já Cármen punha-se a respirar ofegante, tão pobre de caminhos era aquilo em que existia, mas seguia pensando que tudo provavelmente estava em seu devido lugar. As aspirações de Cármen  morriam com o cerrar da fresta da janela de madeira. O intervalo de sobrevivência das fantasias de Cármen era demasiado curto, uma realidade relâmpago por trás de um espelho trincado, um reflexo que se repetia melancolicamente por várias tardes de todos os anos pela única fresta de uma vida inteira.

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