quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Os dias não tem um menu com final alternativo

Como se não bastasse toda a minha própria cólera, o mundo se impõe como o braço direito de um destino perverso e mesquinho, para fazer de mim um embrulho vil dentro do qual nada se esconde. Algumas roupas encardidas, que de tanto ficarem assentadas no meu corpo sem que eu as tire para lavar e estender, estão já rígidas na superfície do corpo, e mesmo fora dele talvez fossem capazes de sustentar sua forma, e então seriam  como eu, um embrulho pálido  que não envolve nada, só um vácuo misterioso que de alguma forma sustenta um invólucro desprezível.
O dia está abafado, o vento que sopra de quando em quando é quente de mais pra ser agradável. O padeiro está excepcionalmente empolgado, tem uma dúzia de anedotas novas, e outra dúzia antiga mesmo, que ele insiste em recontar.
À porta de casa, o contêiner exala um cheiro forte, partes de várias casas, apodrecidas, nadando em um chorume azedo. As vizinhas são excessivamente amigáveis, e me cumprimentam, e me pegam no braço, imaginem só, me pegam no braço! E me bloqueiam a passagem, e eu começo a suar, vizinhas muito alegres, faladeiras, espalhafatosas, falam alto, e quando avanço, estendem o braço e me impedem novamente a passagem, me perguntam coisas que não sei responder e insistem em coisas que não precisamos saber, eu perco a paciência e solto um quarteirão de ofensas e palavrões, me sinto estranhamente bem com isso, não foi nem um pouco a contragosto, eu poderia ter feito isso sem qualquer motivo, elas poderiam  estar sentadas e eu passando simplesmente e eu poderia injuriá-las a preço de nada, como uma criatura vil e  inconstante que sou, só pelo desprezo de suas naturezas. O odor do contêiner faz arder minhas narinas enquanto subo a escada até o segundo andar com um sorriso malicioso nos lábios. Chego ofegante, não tanto pela caminhada mas pelos seres humanos que insistem em ser obstáculos tão concretos para a minha tranquilidade. A televisão esquecida ligada alerta agora que o tempo continuará esse momentâneo deserto do Saara das Américas .
O pão está fresco mas o café é de ontem à noite. As contas chegaram todas, mas o pagamento não saiu, os bancos ligam sem parar, minha privada entupiu, meu saca rolhas quebrou e eu não consigo abrir o vinho que guardei pra beber na minha folga que seria hoje. Era pra ser um dia sossegado, mas quem tem nervos como eu nessa vida entende que um dia, a vida reúne uma trouxa de coisas chatas e estúpidas como, um clima ruim, um padeiro inconveniente com anedotas detestáveis, xenófobas, homófobas, ou simplesmente patetas de mais, e ainda mais quatro vizinhas extravagantes e um saca rolhas quebrado, e joga essa trouxa na cabeça de quem anda por aí a reunir manias de terceira idade e algumas amarguras, e a cabeça fica dolorida, e de repente o mundo inteiro parece nos desprezar fortemente e então nós desprezamos fortemente o mundo, com mais força que podemos, de modo que nos olhos não cabe uma lágrima, nos lábios já não cabe nem o sorriso malicioso, no peito existe exclusivamente desprezo exagerado, e até um grito que tentamos dar não sai mais do que como um ganido. Dói o ombro, as nádegas, as pernas, dói a cabeça e o peito, na garganta tem uma bola de angústia indissolúvel, isso tudo não pode ter outro diagnóstico, são sintomas intermediários de desprezo pelo mundo com depressão crônica e loucura epilética com momentos de consciência avulsa e estados delirantes. Em um momento o mundo é detestável e você tem consciência disso, em um outro você é um verme da sociedade, eles te desprezam mesmo sendo inferiores em certas medidas com relação a você.

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