O dia está muito quente, longe de confortável, as pessoas estão comunicativas de mais para eu achá-las simpáticas. Os livros de filosofia estão muito maduros para a minha mente infantil de hoje.
As mangas que eu aguardava para comer com calma e saboreando cada talha, amadureceram demais, de modo que se pode espremê-las em um copo e sorver o seu caldo amarelo e quente, mas nada das minhas talhas firmes e esverdeadas, gosto de frutos frescos e de carnes consistentes. Deliberei um instante e joguei-as no lixo, muito penosa por tê-las deixado amadurecer e com raiva de atirá-las tão amarelas no lixo, era como se elas devessem se envergonhar e atirar a si próprias como um pedido de desculpas por ficarem tão amarelas, moles e decrépitas.
Meus ouvidos escutam as injúrias que uma voz de dentro solta, então não ouço nada que vem de fora, nesses instantes só o de dentro existe e até a visão fica meio turva. Música, é bobagem tentar, ela é terapia para estágios menos avançados do que esse de paranoia cotidiana, de tédio em seu último nível, música é pra quando a gente tem ouvido para o mundo de fora, e o mundo de dentro não se encontra tão hermeticamente lacrado.
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