Frases minhas desligadas das suas, você balbuciou algo que não tinha coerência alguma com nada que eu havia dito. Tantos assuntos simultâneos com o intuito somente de nos esconder. Fiquei em silêncio um instante, foi então que percebi, duas bocas que falavam tanto pra ocultar os gritos de dois corações. Tropeços de comentários e indiferença mal encenada, casualidade... Filmes...as palavras de alguém...esporte...a inauguração da linha férrea...
Você se despede, mas eu sinto como uma hesitação do outro lado da linha, mais nenhuma palavra, e então sei que a chamada foi encerrada, já nem me lembro se fui eu quem discou o seu número ou se meu telefone tocou. Frases seguras, decididas e destemidas me deixam o corpo e batem com força no aparelho telefone, frases do tipo que eu gostaria que ouvisse, ah! como eu queria ser ousado, mesmo que fosse torpe, como queria ser seguro ainda que extravagante, vil ou desavergonhado, como queria ser firme mesmo que por um instante. Um instante muitas vezes muda uma vida inteira. Mas você já desligou, eu sou sempre assim, sempre um pouco tarde de mais, me descarrego, me declaro, te devoro, me desenrolo de palavras de amor, faço um papel ridículo, ainda que fosse assim ridículo mesmo, ficaria como que exorcizado se ao menos conseguisse ser ridículo pra você, o telefone está mudo.Ele só me ouve.Sou mesmo um novelinho amarelado de tempo e jamais poderei exibir minha cor brilhante que se esconde sob opaco amarelado de tempo, não me desenrolarei pra isso.Só quando o telefone cala...
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